Após a divulgação da fala, partidos da oposição passaram a exigir a exoneração imediata do alto funcionário do gabinete
Tóquio, Japão – Uma declaração feita por um alto funcionário do gabinete japonês, responsável por assessorar o governo em temas de segurança, gerou forte repercussão política e diplomática. O assessor afirmou que “o Japão deveria ter armas nucleares”, comentário feito sob condição de confidencialidade e apresentado como opinião pessoal.
Após a divulgação da fala, partidos da oposição passaram a exigir sua exoneração imediata, informou a TV Asahi em reportagem exibida neste sábado (20).
A controvérsia veio à tona no mesmo momento em que a primeira-ministra Sanae Takaichi participava de eventos oficiais relacionados à cúpula com líderes de cinco países da Ásia Central, iniciada na sexta-feira (19). Enquanto a agenda diplomática avançava, a declaração no núcleo do governo provocou críticas tanto da base governista quanto da oposição.
Parlamentares destacaram que manifestações desse tipo, vindas de alguém que ocupa posição estratégica no aconselhamento de políticas de segurança nacional, não podem ser tratadas como meras opiniões individuais.
Temas sensíveis
O ex-ministro da Defesa, Gen Nakatani, do Partido Liberal Democrata (PLD), afirmou que membros do governo devem evitar declarações sobre temas sensíveis e que, diante da repercussão, medidas adequadas precisam ser tomadas.
A oposição reagiu com dureza. O líder do partido Komeito, Tetsuo Saito, classificou a fala como “grave” e disse que o assessor “merece exoneração”, afirmando que a posse de armas nucleares levaria o Japão ao isolamento diplomático e poderia, paradoxalmente, piorar drasticamente o ambiente de segurança do país.
Já o presidente do Partido Democrático Constitucional, Yoshihiko Noda, declarou que é problemático que alguém com esse tipo de pensamento esteja tão próximo do centro do poder, defendendo o afastamento imediato do alto funcionário.
Reação da China
Há, no entanto, vozes dentro do campo político que consideram legítimo debater o tema. Em publicação na rede social X, o ex-ministro Taro Kono afirmou que não é correto tratar o simples debate sobre a posse de armas nucleares como um tabu, defendendo que o Japão discuta abertamente vantagens e desvantagens antes de chegar a qualquer conclusão.
A declaração também gerou reação internacional. O governo chinês demonstrou forte preocupação. Em pronunciamento, o porta-voz adjunto do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, afirmou que, se as informações forem verdadeiras, a situação é “extremamente grave” e alertou para o que chamou de uma “tentativa perigosa” de romper normas do direito internacional.
Segundo ele, tanto a China quanto a comunidade internacional devem manter vigilância e expressar profunda preocupação.
Dentro do próprio PLD, críticas também surgiram. Um parlamentar do partido afirmou que a renúncia do assessor seria inevitável, ressaltando que, em meio às tensões nas relações entre Tóquio e Pequim, a declaração oferece argumentos para críticas internacionais ao Japão.
Governo reforça posição de não possuir armas nucleares
Diante da polêmica, o secretário-chefe do Gabinete, Minoru Kihara, reforçou a posição oficial do governo, destacando a manutenção dos “três princípios de não proliferação” — não possuir, não produzir e não permitir a introdução de armas nucleares no território japonês.
Ele afirmou que liderar esforços internacionais rumo a um mundo sem armas nucleares é uma missão do Japão, único país a ter sofrido bombardeios atômicos em guerra.
O ministro da Defesa, Shinjiro Koizumi, por sua vez, disse que, do ponto de vista da defesa nacional, é natural discutir diferentes opções para proteger a vida e a segurança da população, mas evitou comentar diretamente sobre o futuro do assessor envolvido.
